PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO

E CULTURA CONTEMPORÂNEAS

LINHA DE PESQUISA: CIBERCULTURA

 

DISCIPLINA: COM 512. COMUNICAÇÃO, INFORMAÇÃO, INFORMATIZAÇÃO

TEMA: CIBERCULTURA

CARGA HORÁRIA: 60 h./ 4 créditos.

HORÁRIO: sexta-feira, de 14 às 18h.

PERÍODO: 99/02.

PROF. DR. ANDRÉ LEMOS

Ensaios

Virtualização da Informação

Por  Adriana Reis

Não é a virtualização o que desvirtua a informação. Toda inovação, seja ela científica ou tecnológica, divide a opinião pública. De um lado, os otimistas, que creditam à novidade o fim de antigos problemas. Do outro, cidadãos preocupados com os efeitos que ela pode causar sobre a sociedade e o meio ambiente.

O avanço da Engenharia Genética, por exemplo, permitirá em pouco tempo identificar em uma criança recém-nascida a possibilidade de ela vir a desenvolver um câncer durante a vida. A novidade depende da conclusão do Projeto Genoma, um consórcio internacional, composto pelos Estados Unidos, Europa e Japão, e que tem por objetivo mapear todos os genes da espécie humana até o ano de 2025.

Embora seus objetivos sejam a prevenção de doenças multifatoriais, a melhoria e simplificação dos métodos de diagnóstico e a otimização das terapêuticas de doenças genéticas, a pesquisa divide a opinião de cientistas e leigos. Assim como no caso da Clonagem, há quem lute pela paralisação das pesquisas. A grande preocupação não é com o resultado das experiências, mas o que o homem fará com ele.

A situação se inverte quando o assunto são as novas redes de comunicação. A maioria dos pessimistas costuma atribuir às máquinas a posição de vilão. Mas por que será que isso acontece, se, em ambos os casos, o computador é o principal instrumento de trabalho? "Seria a tecnologia um ator autônomo, separado da sociedade e da cultura?", indaga Pierre Lévy, em seu livro Cibercultura. De fato, não são as máquinas que merecem nosso julgamento. A técnica é um fator condicionante, mas o que determina o sucesso ou fracasso de uma inovação é a maneira como ela foi utilizada, ou seja, a ação do homem.

Para exemplificar podemos citar a televisão, que surgiu como um instrumento de elite e que, ainda hoje, costuma transmitir informações condizentes com os interesses de uma pequena minoria de poderosos. Mas nem por isso ela deixa de exercer seu papel de transmissor de informações e de ser a principal forma de divertimento de muitas pessoas.

A exploração econômica do ciberespaço e o fato de que nem todos têm acesso a ele não sentencia seu crescimento como algo perigoso. Da mesma forma, nada garante que seu impacto será apenas positivo. Já está mais do que provado que nem tudo o que se produz na rede é bom. 

As máquinas evoluem em um ritmo acelerado porque independem da evolução moral dos seres humanos. Para o progresso cientifico-tecnológico, bastam dinheiro, inteligência e raciocínio. Não se trata, portanto, de conter o avanço das novas tecnologias, mas de fazer do Homem um ser melhor, com conceitos morais tão evoluídos quanto sua inteligência mental. Nossa
função, enquanto seres pensantes, é explorar ao máximo o potencial positivo, sem deixar de estudar os efeitos negativos de sua má utilização e de procurar uma forma de combatê-los.

Ao invés de aclamarmos que o ciberespaço aumentará ainda mais o abismo entre ricos e pobres, precisamos estudar como ele poderá contribuir para amenizar este e outros problemas. Se por um lado, ainda levará algum tempo para que as classes mais pobres tenham acesso aos benefícios de novo meio de comunicação; ele já provou ter utilidade, por exemplo, na integração social de indivíduos antes marginalizados, como os portadores de deficiência auditiva que hoje podem ser alfabetizados com ajuda dos computadores e se comunicar com pessoas normais, não só através do teclado, mas usando a linguagem de sinais com o auxílio de datagloves.

Os efeios positivos do crescimento do ciberespaço podem ser atribuídos, principalmente, a evolução de um movimento de virtualização, iniciado com a escrita, a gravação de som e imagem, o telefone, o rádio e a televisão. Hoje, o computador é o principal operador dessa virtualização. Ao digitalizarmos uma informação (texto, som ou imagem), ela é transformada em
números e "compreendida" pela máquina que agora será capaz de calcular qualquer informação que lhe for solicitada.

Como lembra Lévy, "trata-se de um processo automático, rápido, preciso e em grande escala quantitativa". Já podemos, por exemplo, fornecer todas as informações necessárias para se identificar uma doença. Com isso, o treinamento de novos médicos e novos tratamentos de saúde podem ser feitos com a ajuda de robôs ao invés de cobaias humanas ou cadáveres.

Enfim: a mesma máquina que destrói pode construir. O resultado depende da maneira como o instrumento foi utilizado. Enquanto houver homens mais preocupados com seu desenvolvimento profissional e/ou financeiro do que com o progresso humano e a melhoria da qualidade de vida na Terra, estaremos suscetíveis a conseqüências negativas de uma má utilização da técnica. O poder está em nossas mãos.


Comunidades virtuais: as arcas do dilúvio informacional

Por Suzana Barbosa


A dimensão comunitária da Web, com seus milhões de sítios, tem fomentado a criação das chamadas comunidades virtuais - os grupos de pessoas que se comunicam via redes digitais. Essa nova forma de agregação de pessoas em contato constante, embora aconteça a partir de uma afinidade comum, estão colocadas no ciberespaço como unidades que resguardam certa pluralidade. Elas atuam como canais de produção de mensagens e relacionamentos, onde a interatividade e a reciprocidade são experienciadas por seus integrantes.

Entendidas como motores de uma nova forma de associação, as comunidades virtuais ou eletrônicas que se expandem no ciberespaço poderiam, acredito, ser consideradas como “as arcas do dilúvio informacioal”. Se elas, por um lado, emitem e propagam seus objetivos comuns pela rede, também estão carregadas de diversidade. No Active Worlds, por exemplo, milhares de cidadãos de várias nacionalidades participam e interagem num mundo sem fronteiras, construindo também seus espaços específicos. A organização desses mundos ou arcas, é feita de modo a permitir a tranmissão de suas tradições e culturas.

Qualquer um que queira pode participar deste mundo, construindo sua casa, ou mesmo fundando o seu próprio (hoje, já são mais de 500 mundos dentro do AW). Os cidadãos aceitam “pertencer” a determinada arca a partir do interesse comum (cultura, idioma, etc), mas o ir e vir entre as arcas da comunidade eletrônica é permitido, o que amplia o espaço de convivência. Cada arca atrai centenas de cidadãos para o seu espaço. Elas interagem entre si. No AW, cada cidadão assume a forma de avatar. Ou seja, a pessoa neste mundo é uma representação computadorizada em terceira dimensão, que pode gesticular e expressar seus sentimentos. Não importa a forma ou o sexo que assumam: tanto podem ser homem, mulher, criança, ave ou um alienígena. Nesse caso, as imagens tridimensionais dos corpos seria uma forma estendida da telepresença.
Como escreveu Pierre Lévy, “a comunicação por mundos virtuais é, em certo sentido, mais interativa que a comunicação telefônica, uma vez que implica, na   mensagem, tanto a imagem da pessoa como a da situação que são quase sempre aquilo que está em jogo na comunicação”. A relação entre os participantes da comunicação nas comunidades virtuais encaixa-se no dispositivo um-um, todos-todos. Agora, seria correto considerar as comunidades virtuais como a virtualização da sociedade? Fica a questão.

Bairros digitais - Para além dos mundos virtuais, e com a virtualização do cotidiano, as arcas saltam do ciberespaço, extendendo a convivência entre seus integrantes para o dia-a-dia. Nessa mobilidade, a coexistência de um senso comum é o que ajuda a manter a unidades dessas associações. Exemplos: grupos de música eletrônica, tribos que estampam figurinos influenciados pela convivência com as novas tecnologias, arte eletrônica, etc.

À medida que mais e mais pessoas vão se interconectando, a socialização em bairros digitais (tal como descreveu Nicholas Negroponte), conciliando as cidades “reais” e o ciberespaço, se ampliará. Nesses bairros, a convivência entre as pessoas poderá ser orientada segundo uma noção de tempo planetária, integrando o ciberespaço e a cidade “real”: a hora medida em beats, portanto universal, sem barreiras temporárias ou geográficas, não mais determinada pelo Meridiano de Greenwich.  

Sobre a Técnica

Por. Ricardo Salmito

Conversava com Carla sobre Paul Virilio na terça-feira. André o tinha feito nulidade na sexta anterior (forget Virilio!) e comentávamos sobre isso. Justamente que apesar de nossas reservas ao urbanista francês, ainda víamos alguma coisa nele; e eu dizia que mesmo que alguns de seus escritos não valessem a pena o estudo, poderia valer como poesia (quando ele diz por exemplo que o carro acabou com a cidade, é quase Baudelaire...). Claro, aquela poesia dos malditos que nos acostumamos a gostar e que nossa epocalidade zapping (não podemos sentir tédio!) nos fez substituir pela chatice. Então, nascido já no andar da carruagem, Virilio - assim como o Godard de hoje no seu insuportável filme sobre a guerra da ioguslávia - não é mais um maldito, mas um chato. E talvez o tenha compreendido melhor, ele e seu conterrâneo Jean Baudrillard, depois que li América deste último. No livro, Baudrillard viaja pelos Estados Unidos de carro e vai na medida do possível fazendo suas impressões de viagem; e sempre que pode, realizando paralelos devidos com a Europa e mais precisamente com a França. Sobre os franceses ele diz: "Continuaremos sendo utopistas nostálgicos dilacerados pelo ideal mas a quem, no fundo, repugna a sua realização, professando que tudo é possível mas jamais que tudo é realizado" (1986: 68), ao passo que os Estados Unidos seriam essa 'utopia realizada'. Enquanto tal mais inclinados a perceber a tecnologia, a velocidade etc como cultura e menos como impacto. Que fique claro que aqui não polarizo EUA de um lado e França de outro, e nem com isso otimismo e pessimismo com relação ao rumo teórico e material da técnica. Herdeiros de algumas leituras da Escola de Frankfurt, Virilio e Baudrillard são os embaixadores de uma modernidade crítica que aos poucos se retira de cena com ou sem os computadores.

No livro Tecnologias da Inteligência, Lévy diz que a técnica "encontra-se sempre intimamente misturada às formas de organização social, às instituições, às religiões, às representações em geral" (1993: 194). É uma dimensão que exclui de pensarmos o caráter positivo, o negativo e o neutro. Por isso devemos, ao invés de tratá-la em seus impactos, "situar as irreversibilidades" de seus possíveis usos, "formular os projetos que explorariam as virtualidades que ela transporta e de decidir o que fazer dela" (In. Cibercultura, 1999: 26). O problema é quando se parte da técnica com um a priori desligado do humano e numa patética oposição circunstancial de falsa ecologia (ter de preservar o ecossistema biológico e do homem). Aparentemente a técnica é melhor recebida em outras ciências que não as humanas (o que quer que isso seja...). A técnica aparece com um certo preconceito por desalojar um modo de vida então consagrado, desativar mitificações etc. Parece que só com o tempo é que se 'perdoa' a técnica pela sua intervenção, quando não se chama mais de técnica, quando ela muda de nome para algo mais íntimo... Outro problema é aquele que a relaciona com seu uso. E não podemos afastar a técnica deste (lembremos que a técnica não é neutra), principalmente agora onde a lógica (eminentemente técnica) de McLuhan, como extensão do homem dá lugar a uma lógica tecnológica, onde há uma autonomia cada vez maior de funções, cada vez mais orgânicas.

Entendemos que apenas é possível se pensar o ciberespaço e por continuidade uma cibercultura se levarmos em consideração esse novo estatuto da técnica.
_________________________

1-Baudrillard, J. América. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
2-Lévy, P. As Tecnologias da Inteligência. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
3-________ Cibercultura. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.

Arte e Tecnologia

Por  Carla Schwingel

Olá, há duas semanas houve um seminário sobre arte interativa na Unifacs com Roy Ascott, notório da área. Devido as conceitualizações do mesmo, surgiram  algumas dúvidas e discussões. Segue uma delas: Este parte de algumas premissas, a primeira é que não há mais como desconsiderar as irreversibilidades da técnica, a segunda é que o computador  não representa mais um aparelho fixo de criação ou consulta, mas sim um ponto da rede  interconectado a outros pontos (computadores), e a terceira   é que a discussão sobre os meios de comunicação que produzem para um leitor passivo
está em processo de necrose.

A forma como a técnica possibilitou a interação entre as mais diferentes pessoas e a constituição de comunidades virtuais é uma das complexidades contemporâneas. Modificações na produção cultural sendo acentuadas pela velocidade e a constituição de um imaginário cada vez mais pluralístico levam a considerar o papel do chamado usuário da Internet.
A atitude desse perante um novo universo, um não-lugar no qual ele está imerso (ou submerso?), como uma nova ou antiga forma de reagir, de corresponder aos estímulos recebidos, são algumas das dúvidas estabelecidas.

De acordo com Walter Benjamin, há duas sensibilidades na modernidade: a do livro e a do cinema, sendo que a primeira é a do esforço cognitivo que entra no discurso e a segunda é a do discurso que entra no receptor. Com as novas tecnologias e especificamente com a Internet e a familiaridade das multi-tarefas, dos processos de hiperconectividade e interatividade pode estar surgindo uma outra sensibilidade. Para Ascott, esta nova sensibilidade é estimulada pela arte interativa que representa uma mudança paradigmática, pois habita um novo espaço, o espaço entre o real e o virtual, que tem a conectividade e a imersão como princípios básicos da criatividade. Nos espaços criados por esta arte, não há um planejamento prévio (obviamente que há, mas ele seria ínfimo, portanto não comprometedor da aleatoriedade e da criação por parte do usuário-autor). Também afirmou que a arte interativa somente existirá na Internet quando esta realmente representar um ambiente de imersão total, tiver as condições tecnológicas para tal. 

Para Lévy, todo processo artístico é uma virtualização da virtualização e, como ressalta Lemos, no contexto da arte eletrônica contemporânea tal processo atinge uma "radicalização sem precedentes" já que utiliza uma tecnologia igualmente virtualizante e que compreender este fazer artístico é compreender o imaginário desta cibercultura.

Dentro da rede, a arte está sendo compreendida enquanto uma revolução utópica, com a quebra da linearidade e dos padrões vigentes, o pastiche, as mesclas, as re-apropriações, as combinações. E o computador não é mais visto como uma ferramenta, mas sim como um ambiente que possibilita a entrada em um outro espaço, em uma "incubadora de instrumentos de comunicação" (Lemos). E este usuário (tão requisitado pelo shopping mundial de Bill Gates)  poderia aprender a manipular tais instrumentos (ou está intrínseco no ato de sê-lo?) e banalizá-los transformando a quebra dos padrões no padrão vigente da interação com as possibilidades tecnológicas e a inconstância da resposta do outro?

Aqui  poderíamos ter uma das utopias macluhianas, ou seja, o usuário-artista como "homem que, em  qualquer campo, científico ou humanístico, percebe as implicações de suas ações e do novo conhecimento do seu tempo".

GOMES, Marcelo Bolshaw. Sempre fomos Cyborgs.
In:< http://members.tripod.com/ohermeneuta/ANA3.html > Natal,
RN, consultado em agosto de 1999.

LEMOS, André. Arte eletrônica e cibercultura.
In:< http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/> Salvador, BA,
consultado em junho de 1999.

__________. Lista JORNALONLINE : [JORNALONLINE:22] Re:
Jornalismo da TV para a www. In: listproc@ufba.br,
SUBSCRIBE JORNALONLINE (seu nome).

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

______     O que é o virtual? Ed. 34, 1996.

McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões
do homem. São Paulo: Cultrix, 1969.


Ciberhistória
Por José Claudio Oliveira


Nas duas últimas décadas a Informática e a generalização do uso do computador revolucionaram  todos os segmentos da sociedade, e os historiadores não ficaram imunes a esses efeitos. Mais ainda, a difusão dos computadores pessoais em forma massiva, a partir da década de 80, levou os historiadores e outros cientistas sociais a tirarem vantagens da Informática.

Certamente que um dos impulsos dessa evolução - e aqui podemos citar Pierre Lévy - foi (e é) a facilidade dos programas e interfaces promovidos pelo que podemos chamar   "cibercultura". A facilitação da troca de comunicação entre o homem (pesquisador) e a tecnologia (softwares, hardware, rede, e-mail...) trouxe uma aproximação nas ciências humanas que se mantinham aversas ao campo tecnológico. Uma aversão carregada de ranço principalmente por correntes historiográficas e educacionais. Tendências que, ainda hoje, mesmo já utilizando a informática, mantêm-se com certa desconfiança e sinais de
repúdio. É a resistência às mudanças e modelos.

Assim, gostaria aqui de trabalhar em dos meus campos de atuação, a história, tecendo um argumento que possui reflexo no livro do Pierre Lévy e relatando algumas experiências de um passado recente que grupos de historiadores desenvolveram e continuam desenvolvendo.

1. A Difusao da Ciência da Informática entre os Historiadores

O interesse por parte dos historiadores a se adaptarem rapidamente as mudanças tecnológicas, manifestou-se através de quatro atividades básicas. A primeira, foi a criação de associações nacionais e internacionais dedicadas a agrupar historiadores que utilizam a computação ao estudo do passado. A segunda, consistiu na realização de congressos nacionais e internacionais
para a troca de experiências entre historiadores. A terceira, foi a criação de seminários e cursos de mestrados dedicados especificamente a treinar profissionais em História e Computação. Finalmente, a quarta foi representada pela existência de vários jornais especializados em história e computação.

Uma das primeiras associações internacionais dedicadas a agrupar historiadores que utilizam a computação no estudo do passado foi a Association for Computer and the Humanities (ACH), criada em 1966, nos Estados Unidos.  Dez anos mais tarde foram criadas duas organizações, uma na Inglaterra, Association for History and Computing (AHC), e outra similar na
Áustria. Franceses e portugueses criaram associações similares em 1987 e os países escandinavos e a Suíça, no ano seguinte. Em 1990, vinte cinco países tinham suas próprias organizações nacionais e a Associação de História e Computação (AHC), criada em Londres em 1986, transformou-se numa organização de caráter internacional, agrupando todas as demais organizações nacionais.

A Associação Brasileira de História e Computação (ABHC) foi fundada em Florianópolis, em setembro de 1991, por ocasião do Encontro Internacional de História e Computação,  organizado pelo Curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina. A ABHC, primeira em seu gênero em América Latina, em novembro de 1991, foi aceita como membro da Associação de História e Computação (AHC). As principais funções das associações nacionais de história e computação foram, entre outras, a de promover conferências anuais, organizar cursos específicos sobre História e Computação e criar grupos de historiadores dedicados a pesquisas, a formação de profissionais na  área, ao desenvolvimento de softwares específicos para historiadores, e a organização de base de dados para a difusao de bibliografias e fontes
documentais. 

Nas universidades Européias e dos Estados Unidos, os historiadores para adaptarem-se rapidamente às mudanças tecnológicas começaram a incorporar no curriculo dos cursos de História, disciplinas dirigidas a treinar alunos, no uso de computadores pessoais, como também para historiadores já  formados, e criar condições para que os mesmos pudessem tirar vantagens da tecnologia. O centro mais antigo de treinamento na  área de História e Computação‚ o Inter-University Consortium for Political and Social Research, criado em 1962, na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. A instituição, um
agrupamento de universidades norteamericanas e canadenses, realiza todos os anos, no período do verão, cursos sobre métodos quantitativos e uso de computadores para historiadores e cientistas sociais.

Na Europa, o treinamento de historiadores na  área de História e Computação, tomou lugar através de cursos especializados realizados durante o verão. Os cursos foram realizados, a partir da segunda metade da década de 80, no Instituto Max Planck em Gottingen, na Universidade de Colônia, na Universidade de Glasgow e na Universidade de Salzburgo. A partir de 1990
foram oferecidos  cursos de mestrado em História e Computação na Universidade de Londres. O Instituto de Pesquisa Histórica da mencionada universidade oferece um mestrado em História e Computação e o University College and Birbeck College oferece um mestrado em Computação e História da Arte.

A difusao do interesse na aplicação  da computação na pesquisa histórica levou também a que surgissem publicações especializadas, entre as mais importantes estão ao final deste ensaio, na bibliografia recomendada para este assunto.

A criação de associações nacionais e internacionais, a realização anual de conferências e congressos, a existência de seminários e cursos de mestrados e a publicação de um número importante de jornais especializados, indicam que a aplicação da computação ao estudo da História não‚ simplesmente um fenômeno passageiro. A aplicação da computação ao estudo da História não é considerada simplesmente como uma nova metodologia mas sim uma nova área de conhecimento no campo da História, com uma epistemologia própria e com um objeto de conhecimento específico. 

2. A cibercultura  e o Conhecimento Histórico

A História como Ciência trata, a partir da documentação existente, de reconstituir a experiência humana, organizando-a cronologicamente, segundo sua localização geográfica e constituição temática. Grande parte do trabalho do historiador, consiste em manipular uma grande massa de documentação para resgatar esta experiência humana, organizando, classificando, selecionando, e analisando os mesmos e, finalmente, comunicando a outros os resultados de sua pesquisa.

Há mais ou menos seis anos, os historiadores utilizavam os computadores em três situações básicas. Na manipulação de uma grande massa de documentação para seu registro, ordenamento e classificação; na transformação da informação em dados   numéricos, visuais ou de outro tipo - para  responder a perguntas especificas resultantes de seus projetos de pesquisa ou verificar hipóteses de trabalho. Finalmente, na utilização da comunicação dos resultados obtidos no processo de investigação, utilizando a "multimídia" (aqui entre aspas porque foge um pouco da definição de Pierre Lévy)  e do hipertexto, para levar o conhecimento do passado, tanto às salas de aulas e auditórios, como numa nova media, além do texto escrito impresso.

Hoje, os múltiplos trabalhos resultantes da aplicação dos computadores no estudo da História, da evolução da informática e de sua facilitação,  podem agrupar-se em vários aspectos.  Vejamos:

- Informática e Documentação, consistindo na criação de Bancos de Dados "on-line",
- a preservação e digitalização de documentos, que é a proposta de criação de bancos de imagens,
- o uso corrente do e-mail e a criação de listas de discussões.

- a aplicação da Ciência da Informática em pesquisas específicas. Grande parte dos trabalhos é realizada a partir da manipulação de uma grande massa de documentação.
- atuação da informática no estudo do passado, da multimídia e do hipertexto, criando desta maneira, com já foi dito,  uma nova media, além do texto impresso, para levar o conhecimento histórico a salas de aulas e auditórios,
- a criação de software específicos para estudos seriais, de imagens e bancos de dados nos campos estatísticos,
- a pesquisa em rede.

3. E no Brasil?

No Brasil, vários trabalhos vêm sendo realizados desde o final de 1989, aplicando a informática ao estudo do passado. Os temas são norteados com ajuda de bancos de dados, bancos de imagens, arquivos de textos, multimídia e hipertexto, buscando tematizações nos campos da história serial, nos estudos da economia, mentalidades, da arte, principalmente da arquitetura religiosa Colonial, da qual as investigações ganham suportes das imagens digitais que auxiliam os investigadores nos estudos iconográficos. Um bom exemplo é (ou foi) a comunicação de Rachel Calvacanti Rauh dirigida a explicar a metodologia desenvolvida para utilizar as fotografias como fonte de documentação histórica utilizando uma base de dados e exames de imagens. Esse caso é importante porque aconteceu no II Encontro de História e Computação, em Ponta Grossa, Paraná em 1992, certamente um dos pioneiros no Brasil.

Mas é bom lembrar o campo da História da Arte, que vem explorando o armazanamento ou que ajudam na didática da sala de aula, é o caso da avaliação de software para banco imagens e de CD ROM  de museus e da própria disciplina, que facilitam na transmissão, discussão, apresentação e contextualização iconográfica, iconológica e sonora com qualidade para a
percepção visual.

4. O Passado como Mensagem

Toda pesquisa histórica consiste em duas atividades básicas.  A primeira em indagar sobre o que o pesquisador deseja conhecer, a segunda em comunicar a outros o que aprendeu na investigação. Reside ai a atividade de comunicar o já apreendido. 
A comunicação do passado histórico por meio digital pode agrupar-se em três grandes   áreas, a saber:

1 - O hipertexto. A facilitação e agilização do texto - um dos elementos primordiais ao historiador - através da agilização e dos links. A capacidade do conceito de Hipertexto para a comunicação do conhecimento histórico pode ser demostrada a partir de duas experiências. Uma realizada pelo historiador inglês Donald Spaeth e outro pelo Grupo Ipertempo, da cidade de Vaiano, na Itália, que apresentou no I Encontro Internacional de História e Computação, realizado em Florianópolis em setembro de 1991, o Progetto "La Immagine Ritrovata. Ambos os trabalhos têm duas características básicas. A primeira‚ que tratam de história local e/ou regional. A segunda‚ que o leitor do trabalho tem uma participação ativa no mesmo, na medida que o propósito não é meramente informar, mas levar o usuário a analisar a informação e, se desejar, criar um trabalho escrito sobre a mesma. Ambas as experiências foram realizadas utilizando o programa HyperCard e um computador pessoal Apple Macintosh. Isso há oito anos através. Hoje uma questão já consolidada. Mas fica o registro para esses dois grupos

A revolução da informática levou à criação de associações profissionais de História e Computação, a organizado de congressos nacionais e internacionais, a fomentar cursos específicos sobre o tema e modificar a estrutura curricular dos cursos de Historia. Os computadores pessoais permitem a criação de bancos de dados "on-line", a preservação de documentos
por meios eletrônico e o contato planetário dos historiadores com a utilização de correios eletrônicos. Em outras palavras, a aplicação da computação na História tem por limite a imaginação dos historiadores.

2 - A transmissão visual. Seja ela imagem ou texto. Capacita o armazenamento, modificação, envolvimento com novos suportes e trocas de imagens principalmente;

3 -  Multimídia e história. A percepção para o historiador de que, hoje, o texto é também eletrônico, para estudo e para sua divulgação. Que um trabalho pode e deve ser auxiliado simultaneamente por sons e imagens, de maneira dinâmica e ágil. Essa é a proposta multimidiática em história. Tecnicamente falando, pois em termos de conteúdo percebe-se que os CD-ROMs e
sites ainda não evoluíram mais do que certos (ou errados?) livros didáticos de 2º grau.

5. Ciberhistória e cibercultura: o encontro

A noção de cibercultura, ou seja, "um conjunto de técnicas (material e intelectual), de práticas, atitudes, pensamento e valores que definem o ciberespaço"  que proporciona privilégios à coletividade, basicamente no saber, acolhe a proposta dos historiadores e outros cientistas sociais, quando se rompe o preconceito tecnológico e assume as formas hipertextuais
digitais como recursos impressindíveis para as investigações. Isso do ponto de vista prático.

Contudo, há um outro ponto importante em que a cibercultura se encontra com a História. É a memória. A ciência da história - dentre outras ciências - trabalha com a memória coletiva. Busca armazená-la, quantificá-la, preservar e contextualizar os fatos, atitudes e valores humanos. Na cibercultura, a memória é também um ponto básico.

A cibermemória tem um papel determinante na preservação de documentos e a difusao dos mesmos através dos seus meios . Ela, portanto,  não reside apenas nos mega e gigabytes. Está também em outra face, menos técnica. Mais precisamente na preservação-armazenamento, na busca-transmissão dos próprios fatos e acontecimento, acumulando e processando um interminável banco (de tudo).

Certamente que um encontro com uma "arqueologia do saber", onde agora o buril, a pá e o pincel são os links.

Apoio bibliográfico

Cambridge Group for the History of Population and Social Structure, 27 Trumpington Street, Cambridge, CB2 1QA, Reino Unido.

CAUWENBERGHE, Eddy H. G Van & BELL, Rudolph M. "MEMDB: The Medieval and Early Modern Data Bank". Nouvelles de la Science et des Technologies,9 (1):79-91, 1991. Centro de Informaciónn Documental de Archivos, Minist‚rio de la Cultura, Plaza del   Rey 1, 28004, Madrid, Espanha.

DENLEY, Peter & HOPKIN, Deian. "History and Computing." IN: TURK , Christopher (Ed.). Humanities Research Using Computers. London, Chapman & Hall, 1991

DENLEY, Peter. "The Computer Revolution and Redefining the Humanities." IN: MIALL, David S. (Ed.). Humanities and the Computer: New Directions. Oxford, Clarendon Press, 1990.

History & Computing. Editor: Dr. R. J. Morris, Department of Economic and Social History, William Robertson Building, George Square, Edinburg EH8 9JY,

Great Britain. O jornal e distribuído pela Oxford University Press, Walton Street, Oxford, OX2 6D, Great Britain.

Inter-University Consortium for Political and Social Research, P.O. Box 1248, Ann Arbor, Michigan, EUA.

Internationalen Hochschullehrgang c/o Sabine Jahn, Institut fur Geschichte de Universitat Salzburg, Rudolfskai 42, A-5020 Salzburg, Austria. Os cursos s¦o oferecido em Alemlemãoo e inglês.

IPERTEMPO, Grupo. "El Empleo Experimental del Computer en el Campo de la Didactica de la Historia." Encontro Internacional de Historia e Computação. Florianópolis, 26 a 27 de Setembro de 1991.

LEMOS, André. "Les communautés virtuelles". In: Societé. Paris: Dunod, 1995. N. 45.

LEVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. 264 p. (Trans.)

NEVES, Guilherme Pereira das. "A Organização de Banco de dados e os Procedimentos Tradicionais do Historiador: Um Estudo Prosopográfico do Clero no Brasil, 1808-1828." Comunicação apresentada no Encontro Internacional de
História e Computação, realizado em Florianópolis, de 26 a 27 de Setembro de 1991

OLIVEIRA, José Cláudio Alves de. "Banco de dados iconográficos: problemas e perspectivas. Da fotografia à realidade virtual". In: Revista digital do V Encontro de História e Computação. Florianópolis: UFSC., 1995.

OLIVEIRA, Pedro Lopes de. "O Computador na Pesquisa em História Demográfica: Imarui - SC, 1833-1900." DALLABRIDA, Norberto. "A utilidade do Computador na Elaboração da Dissertação de Mestrado."Fotografia, Computação e História: Introdução a uma Metodologia." D'ACAMPORA, Márcia. "Computação e Análise Histórica: A História Através do Jornal." Todos estes trabalhos foram apresentados no Encontro Internacional de História e Computação, realizado em Florianópolis, de 26 a 27 de Setembro de 1991.

RUIZ, Ernesto A. "microcomputadores e Pesquisa Histórica: Algumas Reflexões Teórica e Metodológicas." Anais da II Reunião, Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Sao Paulo, 1983, pp. 71-74.

 

O jornalismo on-line como possibilidade de interatividade.
Por Afonso Jr.


Momento 1. – O jornal e os velhos problemas.

Desde o seu surgimento no século XVII, o jornalismo apareceu como possibilidade de criar um circuito de comunidade em torno do que noticiava. Nesse início, a inserção do jornal, ao menos enquanto projeto ideal, dizia respeito ao relato de uma determinada quantidade de fatos, acontecida durante um determinado tempo para um público. Nesse sentido, está embutido além do senso de comunidade do jornal, o caráter de uma certa fidelidade informativa. Enquanto projeto, o jornal concatenava o ideal simbólico de ser um retrato em resumo da realidade em forma de páginas, espelhando de forma miniaturizada as coisas que se passam na sociedade.

Evidentemente, descontando a ingenuidade desse projeto de imparcialidade e objetividade diante dos fatos, o jornal em si nunca cumpriu, mesmo na sua origem, esse projeto. No início, os jornais se inclinaram no sentido de serem tribunas políticas,
>a serviço de causas das mais diversas ordens. A partir do século XIX, com a revolução industrial massificando a produção de noticiários, o jornal agrega também o valor de mercadoria, passando mais tarde a se constituir em um ‘negócio’ de natureza empresarial. De qualquer forma, o jornalismo se configurou essencialmente na tríade lógica: seleção, ordenação e atribuição (ou negação!) de importância dos acontecimentos. Há de se adicionar a isso, o fato da imprensa se constituir classicamente como veículo de massa de emissão centralizada de um lado, e consumo da informação, do outro.

Existe na construção da imprensa um jogo dualista. Na ponta da produção, toda uma estrutura de equipamentos, mentes e distribuição. Tipicamente um ofício constituído, um saber-fazer para poucos. O combustível que alimenta esse mecanismo como um todo, chama-se cotidiano. Nesse sentido, poderia-se falar da imprensa como um mecanismo tecnocrático de concentração da construção do senso comum?

Momento 2 –  Novos problemas.

Evidentemente o estado de coisas configurado dessa forma, contém uma contradição: é produzido a partir do jogo social dos fatos, porém exclui a possibilidade de manifestação ativa de todas as partes envolvidas. É claro que a imprensa moderna se constituiu num importante recurso da vida democrática no sentido de se garantir o acesso a informação livre, a liberdade de expressão. Sobre isso baseia-se um de seus maiores capitais: a credibilidade. Porém o problema é maior que esse simples paliativo indica. Trata-se mais de liberdade a produção da informação, do que simplesmente ao acesso desta.

Dando um largo salto no tempo, com o surgimento das redes telemáticas, principalmente a WWW, possibilitou-se o surgimento de diversas experiências jornalísticas no novo ambiente. Surge assim o que chamamos de jornalismo on-line. Para o novo ambiente começaram a surgir versões on-line dos jornais tradicionais. Porém, uma significativa corrente de publicações, que não possuíam um modelo material prévio, também se fizeram manifestar no novo ambiente de comunicação. As razões principais para tal são: o baixo custo de produção de uma publicação on-line e o fim da necessidade de possuir uma
>rede de distribuição complexa e de altos custos para circular a informação. Há uma mudança estrutural na produção da informação: passa-se de um modelo em átomos, para um modelo em bits. Cria-se assim alternativas de distribuição de informação jornalística aos modelos hegemonicamente consolidados.

Porém, nesse novo patamar, persistem alguns problemas. Muitos dos jornais tradicionais marcam presença na WWW com modelos de difusão e produção da informação, de modo semelhante as suas versões impressas. No outro extremo, podem-se ver exemplos de publicações on-line, onde se exploram mais profundamente as novas possibilidades, notadamente a interatividade. O que se deve colocar aqui é que a WWW é movida pela interação. Quer seja uma interação técnica (diante dos hipertextos), quer uma interação social, demonstrada pela sociabilidade emergida da rede, pelos chats, ircs, e-mails, etc.
O problema configurado nesse momento, relativo ao jornalismo é: como agregar esses laços de interatividade dos agentes comunicacionais (antigos emissores, receptores, canais) no sentido da produção de notícias. Em outras palavras, como os critérios de seleção, ordenação e atribuição de valor da notícia podem ser ampliados a partir do advento da interatividade agregada ao próprio veículo de disponibilização da informação?

O que pode esclarecer até certo ponto essa dualidade entre modelos conservadores e experimentais, é o caráter de surgimento de cada um dos veículos. Um jornal que já existe e vai para a WWW leva para o novo ambiente certamente a sua credibilidade, objetividade, enfim seu modus-operandi. Leva também, uma cristalização monológica da construção do discurso. Não à toa são justamente esses jornais que menos chaves de interatividade estabelecem com os usuários. Na outra ponta da dicotomia, estão os veículos que já nasceram on-line. Onde tendencialmente a multivocalidade entre os agentes se coloca como um elemento de construção da notícia desde a base. Como foi exemplificado por um editor da hot wired em texto recentemente enviado para a lista de discussão de jornalismo on-line: “Você cresceu em um mundo com 3 canais de TV", diz ele a esta escritora de 50-e-alguma-coisa. Eu cresci em um mundo com 80 canais". Ele também cresceu com videogames. Multitarefa -- trocar de uma tarefa para outra -- é apenas uma extensão da suas habilidades de infância”. Ou seja, os processos de hiperconectividade e interatividade já são algo presente na nova geração que pilota os sites da WWW.

O que podemos colocar nesse ponto, é que o patamar de interatividade entre o homem e a mídia está se ampliando. Ao ver televisão, por exemplo, o espectador age (visto que nunca há uma recepção passiva do que se vê), diante de um computador conectado à rede, o usuário, no mínimo, reage. Sem a ação, a atividade, nada acontece. A partir do momento em que se navega, se coloca um processo autônomo, o usuário interage. É essa a mudança de qualidade de relação com a mensagem que se estabelece. Para o campo do jornalismo on-line, a interatividade se engendra dentro do processo de acesso a informação, e como possibilidade também de interferência no conteúdo, constituindo-se assim em mais outro problema.

Momento 3 – A "incubadora midiática".

A possível saída (no sentido de alternativa e não de finalização da questão) para esse estado de coisas, pode ser a percepção da interatividade como alargamento do horizonte da cobertura jornalística. Em certo sentido, trata-se de roubar um pouco do fogo sagrado dos deuses monopolistas do discurso jornalístico da contemporaneidade. Há na WWW certamente muita oferta de notícias, mas também há muita repetição das mesmas. Principalmente entre os órgãos hegemônicos da imprensa.

Há alguns dias, o Prof. André Lemos, enviou uma mensagem para a lista de discussão do jornalismo on-line com a proposição de uma “incubadora midiática”. - “Nesse sentido proponho que a Rede seja vista como uma “Incubadora Midiatica”  (ou Mediatica), um ambienta propicio à proliferação de novas formas midiaticas (RV, por exemplo) bem como a adaptação das antigas formas dos mass media. A Rede, como o próprio nome indica, é um ambiente entrelaçado (rizomático) permeado de instrumentos de comunicação (as diversas mídias). Ela é mais uma gestadora de mídias, uma incubadora de instrumentos de comunicação do que uma mídia em sentido clássico.”

É inevitável que dentro da corrente de convergência atual, os mídias tradicionais migrem para a rede. Porém se o movimento for apenas de migração, sem agregação de novas qualidades ao processo comunicativo, o que acontecerá será meramente a ocupação de mais um espaço, uma ampliação do latifúndio das mídias já presente em seus suportes tradicionais. Steve Outing, em sua coluna parem as máquinas de 2 de junho de 99, já coloca um fator de desequilíbrio nesse movimento de migração. Para ele, as companhias que mais obtém sucesso na Internet são aquelas que se devotam 100% dos seus recursos humanos, materiais, intelectuais a editoração on-line. Dividir-se entre colocar forças entre modelos tradicionais e on-line, não coloca, na visão do colunista, um diferencial significante diante do usuário. Em tom de profecia ele propõe:   “Os maiores vencedores serão aqueles que não deixarão que considerações atinentes às velhas mídias influenciem seu processo decisório. Para uma empresa de mídia puramente online, a melhor decisão é sempre óbvia. O mesmo não se aplica a uma empresa de mídia tradicional, que pode ter de enfrentar uma decisão capaz de estimular o crescimento de sua divisão online, mas contrariar os interesses das unidades "tradicionais" da empresa. (...) Já passamos do ponto em que as empresas de mídia tradicional podiam se sair bem
>com departamentos online e esperar que se transformassem em empreendimentos tremendamente lucrativos. Cheguei à conclusão de que quem optar por manter os departamentos de Internet como operações internas não atingirão as mesmas alturas que as empresas que os estabelecerem como unidades independentes.”

No caso específico do jornalismo “a incubadora” poderia partir dos seguintes patamares: - Colocação de conteúdo exclusivo para a versão WWW. - Incorporar a WWW como fonte de notícias, ou seja, entendê-la como ambiente  próprio de sociabilidade, e de trabalho em cima dos fatos existentes no espaço virtual. - Colocar a interatividade usuário-editor-veículo  como elemento de construção noticiosa. - Pensar e agir on-line, e não transpositivamente. Evidentemente, a interatividade dentro do ambiente das redes, e consequentemente do jornalismo on-line, é o fator que condiciona as possibilidades de fluxo entre usuários, veículos e notícias. Pierre Levy, coloca no seu livro Cibercultura o que seriam os eixos de interatividade para as  mídias e dispositivos de comunicação: Personalização, reciprocidade, virtualidade, implicação e telepresença. Nesse momento penso que está dada uma chave, ou o “calor” necessário para o funcionamento da “incubadora”  midiática. Não na aplicação singular de uma desses eixos, mas do uso dos mesmos em diferentes níveis, no caso do jornalismo, da produção do relato do cotidiano.

Como proposta os eixos de interatividade postulados por Levy condicionariam assim o jornalismo on-line:

- Personalização. A possibilidade de recortes noticiosos pertinentes a cada usuário. Isso de certa forma já foi tentado pelas tecnologias de webcasting, sem muito sucesso. Mas o problema aqui, nessa tentativa foi mais a repetição na web de um modelo já existente na mídia tradicional, de difusão massiva. A personalização no sentido de Levy, teria um horizonte mais amplo, com possibilidades de fuga ao pré-determinado.
- Reciprocidade. Estabelecimento de modelo de trânsito da informação no sentido todos-todos. Estabelecimento de uma circularidade de troca e reciclagem das informações entre editor e usuário.
- Virtualidade. A mensagem como espaço de interação possível entre os usuários. Ao acessar determinada matéria, o usuário atualiza-a, criando a base de interatividade entre os demais agentes do dispositivo comunicacional.
- Implicação. Possibilidade de interferência no conteúdo. Proposição de pautas, dialogia pertinente à produção do jornal on-line, e não apenas ao já publicizado.
- Telepresença. A capacidade de atualizar o conteúdo do jornal on-line em lugares diferentes. Isso já existe, mas pode ser ampliado com o desenvolvimento de interfaces mais ágeis e leves. (PDAs, notebooks, tinta digital, etc).

Dessa forma, colocam-se alternativas que possam reconfigurar o espectro dos jornais on-line como formadores do senso comum. Além de simplesmente atuar como um massificador de informações, podendo agregar as possibilidades do ambiente das redes enquanto portador de multivocalidade e interatividade entre os agentes do processo comunicacional. Podendo finalmente, sair da condição de ser Comunicação de massa, para tornar-se efetivamente Comunicação Social.

Seria o caminho para projetar a “incubadora midiática”? – Fica a questão.

A Aprendizagem do Adulto no Segundo Dilúvio

Por Celina Bastos

"O dilúvio informacional jamais cessará. ... O segundo dilúvio não terá fim.

Não há nenhum fundo sólido sob o oceano de informações.

Devemos aceitá-lo como nossa nova condição.

Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar."

Pierre Lévy

ESTÓRIAS

Meu pai costumava contar esta estória que compartilho com vocês; hoje não creio que tivesse presenciado o acontecimento, mas ele gostava de se fazer de ator. Na época em que morava na fazenda, certa feita ele foi chamado como médico para atender a um velho que estava passando muito mal. A casa do paciente ficava muito distante. Era uma construção de taipa, no meio de uma roça muito pobre. Lá chegando ele logo verificou que nada mais havia a ser feito: o velho estava "nas últimas". Como bom cristão, ele ainda pensou em chamar o padre, mas achou que não haveria tempo. Na falta do vigário, resolveu consolar a família conduzindo as orações dos familiares; procurou então uma vela para acender durante as preces, pois a vela ilumina o caminho da alma. Mas a casa era tão pobre, que nem uma vela tinha. Foi então à cozinha, tirou um tição do fogão de lenha e o colocou nas mãos do velho, com muito cuidado; a brasa também é luz para o interiorano. Para a sua surpresa o moribundo abriu os olhos de mansinho e balbuciou : "- Morrendo e aprendendo."

Este era o jeito do meu pai estimular a todos nós ao aprendizado contínuo. Até minha mãe era incitada a aprender. Hoje, se fosse vivo, meu pai ficaria orgulhoso em ver que sua mulher, aos 74 anos, continua excelente aprendiz: só nos últimos três anos aprendeu a lidar com um forno microondas, o controle remoto da TV para seleção de canais sob demanda e, sem qualquer resistência, com um celular e com a caixa de voz, rejeitada por muitos, onde ela deixa mensagens sem qualquer hesitação. Além disso, vem fazendo amizade com o computador e já denunciou que o "danado" rouba no jogo de paciência.

ATUALIDADE, OBSOLESCÊNCIA E SABERES

A oportunidade para aprender sempre foi uma constante. Hoje, no entanto, com mudanças ocorrendo num ritmo alucinante, a relação do indivíduo com o aprendizado passa por profundas transformações. Nesse contexto observa-se o foco dos estudos no aprendizado da criança e no desenvolvimento da inteligência, também com a perspectiva do desenvolvimento infantil. E o adulto? Qual a sua relação com o aprendizado na atualidade ?

Diz Lévy que "A aceleração é tão forte e tão generalizada que até mesmo os mais ‘ ligados’ encontram-se, em graus diversos, ultrapassados pela mudança." (1) Pessoalmente tenho experimentado e observado a sensação de impotência que advém da constatação deste descompasso, da desatualização. Essa experiência frustrante é seguramente fonte de profundo estresse para o adulto. Ocorre-me questionar se esta experiência é um empecilho ou um estímulo constante à aprendizagem.

Outro aspecto do aprendizado do adulto é a sua relação com a base tecnológica, que Lévy diz parecer "a manifestação de um ‘outro’; ameaçador."(1) Não é simples conviver com a obsolescência dos saberes. Em 1964 aprendi a usar uma régua de cálculo; era uma grande novidade, tanto que, vindo dos EUA no ano seguinte, eu trouxe uma de presente para um amigo. Durante toda a segunda metade da década de 60 a régua de cálculo foi totalmente esquecida e passei a lidar com calculadores as mais diversas e com uma incrível e moderníssima máquina de escrever manual portátil. Em 1970 aprendi a perfurar cartões e um pouco de lógica de programação. Uma vez graduada, pouco me aproximava das máquinas, pois uma executiva que se prezava delegava trabalhos daquela natureza à sua secretária e assistentes. Mas eu era curiosa e aprendi a operar o telex e máquinas de escrever elétricas. A empresa contraiu empréstimo bancário para a compra do primeiro computador pessoal e contratou um engenheiro para operá-lo. Quando finalmente consegui me aproximar da máquina, fui obrigada a aprender o Word Star, verdadeira língua estrangeira para processar um simples texto. Quantos saberes completamente obsoletos...Morrendo e aprendendo. A cada morte de uma tecnologia, o aprendizado de uma nova. Aprendizado que mal se configura, já está ultrapassado. Pode-se também questionar a relação dessa obsolescência vertiginosa com o aprendizado do adulto.

A metáfora do segundo dilúvio é muito feliz para retratar a intensidade e rapidez das mudanças de nossa época; e é interessante pensar nas arcas que abrigam as diversas espécies humanas. Lemos refere-se à "uma mistura entre fascinação por novas tecnologias e um medo muito grande"; "...sensação ambígua de fascinação e medo" (2). Medo esse que é quase uma fobia para alguns. Uma das barcas do segundo dilúvio seguramente abriga esses tecnófobos. Outra espécie humana é formada por aqueles que, tendo experimentado o quase "afogamento" no dilúvio informacional e tecnológico, busca abrigo no desenvolvimento do ser adotando como referência o encontro da sabedoria milenar com a ciência, que experimentou grande alavancagem com a física quântica, tão bem explorado por Fritjof Capra no Ponto de Mutação. Para esses, se todo o conhecimento está no vazio, conta experimentar o vazio como forma de acesso ao conhecimento. Correntes do aprendizado no oriente com fortes ramificações no ocidente demonstram que uma criança começando a meditar aos 7 anos – idade mais frequente da alfabetização no ocidente – entre os 12 a 15 anos pode ser considerada sábia. Enquanto a primeira espécie – tecnófobos - recusa-se a aprender, esta percorre outros caminhos de aprendizagem, talvez para amenizar os excessos da sociedade.

Concordo com Lemos de que a tipologia as diversas espécies humanas não acrescenta muito à compreensão da cibercultura, configurando-se sobretudo como um fenômeno social. Parece-me importante, no entanto, examinar o desenvolvimento da habilidade humana de "aprender a aprender", como uma forma de sobreviver ao dilúvio.

Recordo-me de uma experiência que marcou muito meus questionamentos sobre a aprendizagem. Assumi o desafio de organizar um curso de pós-graduação de uma ano, fruto do convênio de uma entidade de classe e duas instituições de ensino, uma em Salvador e outra em São Paulo, para um público de executivos e profissionais em cargos de gerência. Um grupo maduro e experiente, a maioria acima dos 30 anos. No primeiro dia de aula estava prevista uma integração. Para realizá-la foi convidada uma excelente profissional, com muita experiência em facilitar processos grupais. Cada encontro tinha duração média de 3 horas. Em determinado instante do encontro, ela colocou uma música e sugeriu que as pessoas se levantassem, movimentassem pela sala e descontraíssem; dançar seria uma opção. Para minha surpresa, no dia seguinte haviam 3 desistências; motivo alegado: não estavam ali para dançar. Coordenei esse curso por dois anos consecutivos e o tempo todo me perguntava porque algumas pessoas experimentavam tanta dificuldade em aprender e a se adaptar a novas situações, como a música na sala de aula, num único dia de início de um programa extenso e desafiador.

Se observarmos o processo de aprendizado da maioria dos adultos acima dos 30 anos no nosso meio possivelmente vamos encontrar as mesmas dificuldade que encontrei com aquelas duas turmas. Isso porque o ensino que eles experimentaram privilegiava os conhecimentos ou o simples saber. Felizmente nesse dilúvio estão sendo revistas também as teorias do desenvolvimento da inteligência. Tudo que se aceita como válido nessa área, por exemplo, é fruto do conhecimento adquirido nos últimos 10 anos. Acredito que até a compreensão do próprio processo de aprendizagem passa por esse dilúvio.

"HIGH TECH, HICH TOUCH"

Compreendendo a cibercultura como um fenômeno social parece-me importante também averiguar a adaptação do homem a esse processo que exige um aprendizado contínuo, o constante acionamento da habilidade de "aprender a aprender". Aqui vale lembrar um dos paradoxos globais abordados por Naisbitt (4) que é o desenvolvimento simultâneo de processos "high tech" com os processos "high touch", ou seja, ao mesmo tempo que a tecnologia se desenvolve, desenvolvem-se também processos os mais diversos que buscam aproximação cada vez maior entre as pessoas. É um fenômeno que se insere naquilo que Lévy chama da "exaltação do indivíduo" e que certamente favorece aos processos de aprendizagem. Mas isso já daria um novo ensaio. Minha idéia central é de que , mais do que nunca, precisamos o lema "morrendo e aprendendo" pode nos ser útil, como já dizia meu pai.

  1. LÉVY, Pierre – Cibercultura, Editora 34, São Paulo, 1999, 260 p – p.28
  2. LEMOS, André – Cibercultura: Técnica, Sociabilidade e Civilização do Virtual, in PRETTO, Nelson – GLOBALIZAÇÃO E EDUCAÇÃO, Ed. Ijú, 1999
  3. CAPRA, Fritjof – O PONTO DE MUTAÇÃO, A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente, Cultrix, São Paulo,1982, 447 p.
  4. NAISBITT, John – PARADOXO GLOBAL, Ed. Campus, Rio de Janeiro, 1994, 333 p.

 

Links a Resenhas Anteriores

Por Lucina Mielniszck


No lugar de postar um texto - que talvez tomasse outro rumo, diferente dos caminhos já apontados na nossa lista - , optei por tentar “linkar” dois textos já existentes. Refiro-me aos textos da Adriana e do Ricardo.

Do texto da Adriana, depreende-se a preocupação da autora com os seguintes aspectos, entre outros:  a) diante de alguma inovação, a divisão de opiniões entre otimistas e pessimistas;  b) impacto positivo  e impacto negativo; c) abismo entre ricos e pobres; d) ação do homem como determinante para o sucesso ou fracasso de uma inovação tecnológica.

Sem exatamente discordar dos pontos trazidos pela Adriana, gostaria de chamar a atenção para a complexidade do assunto e o risco que corremos de simplificar a questão, partindo de análises que trabalhem com polarizações. Na minha opinião, o Ricardo aproxima-se bastante deste ponto no seguinte trecho do seu texto:

“No livro Tecnologias da Inteligência, Lévy diz que a técnica ‘encontra-se sempre intimamente misturada às formas de organização social, às instituições, às religiões, às representações em geral’ (1993: 194). É uma dimensão que exclui de pensarmos o caráter positivo, o negativo e o neutro. Por isso devemos, ao invés de tratá-la em seus impactos, ‘situar as irreversibilidades’ de seus possíveis usos (Cibercultura, 1999:26)”

Partindo das idéias dos colegas, gostaria de chamar a atenção para dois tópicos:

* neutralidade da técnica
Fico com a impressão que a Adriana e o Ricardo possuem idéias diferentes. Ela parece defender que a técnica é neutra e a utilização (positiva ou negativa), vai depender da utilização atribuída pelo homem. Já o Ricardo descarta estas categorias (positivo, negativo ou neutro), citando Lévy, ele acredita que a técnica está tão imbricada   nos processos sociais que não é
viável pensá-la a partir das categorias citadas. 

* irreversibilidades
À medida em que a técnica é desenvolvida/incorporada pela sociedade é como se escrevêssemos uma história que não tem mais volta: as opções adotadas são determinates (Lévy faz uma diferenciação entre determinante e condicionante) para a   construção do futuro. Sob esta perspectiva, torna-se menos importante o tipo de uso . O que importa é o próprio uso. Por exemplo, independente na técnica ser usada para o bem ou não, se ela serve apenas a uma minoria, o que mais interessa é o
fato do uso traçar configurações que servem à lógica que rege a sociedade. Em outras palavras, mesmo quem não tem acesso ao computador, vive numa sociedade na qual o computador faz parte.


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