Na semana em que se comemora o dia do jornalista, docentes da FACOM revelam os desafios da profissão.

Publicado em: 12-04-2024

Por Lucas da Hora*

Comemorou-se no dia 7 de abril o dia do jornalista, um personagem indispensável quando o tópico é informação. Responsável por levar à sociedade informações de interesse público, o profissional de jornalismo tem o desafio de sempre priorizar a verdade. Por isso, trabalhar como jornalista exige não apenas competência, como também o compromisso ético ao transformar fatos em notícia.

O dia surgiu em 1931 e é uma homenagem ao jornalista e médico Giovanni Battista Líbero Badaró, morto por oposição a Dom Pedro I. Badaró foi fundador do jornal independente Observatório Constitucional, que lutava pela liberdade de imprensa e evidenciava temas políticos muitas vezes silenciados no período imperial. A escolha da data e da homenagem foi uma decisão da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que escolheu o dia 7 de abril por ser a data da renúncia de Dom Pedro I e por ser o dia em que a ABI foi criada pelo jornalista Gustavo de Lacerda no ano de 1908.

Situados em um mundo de novas possibilidades profissionais, muitos questionamentos surgem aos jornalistas. Dentre esses questionamentos, estão qual  o perfil do novo profissional de comunicação na atualidade, o que permanece como prioridade e o que ainda é inegociável em sua atuação. Nesse sentido, no dia do jornalista, temos mais a comemorar ou a nos preocupar?

Mudanças

Fernando Conceição, professor da FACOM, sinaliza mudanças constantes no jornalismo com o aparecimento de novas tecnologias. “São tempos preocupantes para o jornalismo no mundo", acredita. "Não somente na América Latina e no Brasil, porque a emergência dessas novas tecnologias, dessas novas ferramentas conectadas à internet, às redes sociais e, agora, à inteligência artificial, deverá trazer mudanças profundas no jornalismo exercido em todo o mundo”, ressalta o doutor em Ciências da Comunicação.

O docente ainda defende a importância na definição do que é notícia. “Há uma confusão entre o que é notícia e o que é invenção da notícia. Nós vamos ser a humanidade, que irá conviver e aprender com isso, e fazer as distinções entre o jornalismo profissional, o jornalismo feito com critério, que apura os fatos e enxerga os fatos e tenta compreender e contradizer os fatos. E o que é publicidade, propaganda, propaganda política, empresarial”, diz o pesquisador.

Fernando Conceição/Foto: Júlio César

Fernando Conceição considera que o papel desempenhado por jornalistas na sociedade mudou. “No passado, o papel do jornalismo era ser cão de guarda da sociedade. Era ficar atrás das falcatruas dos poderosos, de qualquer poderoso, seja empresário, seja juiz, seja quem ocupava cargos de relevância na estrutura do Estado. Hoje o papel do jornalista é lutar pela sua sobrevivência. Estou falando de uma forma bem cínica. Você tem que tentar lutar pela sua sobrevivência.”, reflete o doutor. 

Produção e ética

Considerada uma das profissões mais antigas do mundo, o jornalismo e as formas como se produzem notícias modificaram-se com o tempo. Se na era dos jornais impressos as coberturas e as notícias eram de inteira responsabilidade do jornalista — ao associar valor noticioso a determinado acontecimento —, no mundo das telas, todo mundo vigia todo mundo.

Há, portanto, uma descentralização da notícia, assim, o jornalismo é desafiado a ser melhor. É o que acredita a professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Lívia de Souza Vieira. "O jornalismo não tem mais a primazia da divulgação da informação como tinha antes da internet. E isso causa uma série de problemas éticos, como desinformação e a necessidade proeminente de checagem das informações. Mas também, por outro lado, a participação das pessoas provoca o jornalismo a ser melhor”, acredita a docente.

“Temos exemplos aqui em Salvador de pessoas que possuem contas no Instagram e que cobrem o que acontece nas suas comunidades. Onde, por exemplo, os veículos tradicionais não chegam, não vão, não cobrem. Por que não cobrem? Porque cobrem sempre os mesmos lugares da cidade. Então, de alguma maneira também, essa liberação do polo emissor descentraliza, e  o jornalismo com isso tem que ser melhor, tem que fazer melhor o seu papel”, analisa a docente.


Lívia de Souza Barbosa/ Foto: Jéssica Horr

A formação dos futuros jornalistas deve ser afinada com essas mudanças. Na FACOM, em 2022, entrou em vigor o novo projeto Pedagógico de Curso, documento que serviu para valorizar o jornalismo enquanto área autônoma da comunicação.“ O conceito desse projeto político-pedagógico é valorizar a especificidade do jornalismo enquanto campo autônomo da comunicação. Eu acho que essa é a principal diferença seguindo as diretrizes curriculares do MEC, que mudou isso”, explicou  Lívia, membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE), responsável pela renovação.

Ainda assim, para Lívia, mesmo diante das novas tecnologias, o papel do jornalista continua sendo o mesmo. “O papel do jornalista em si continua sendo o de mostrar para as pessoas ou tentar reportar para elas o que está acontecendo no seu entorno, na sua comunidade, no seu país, no mundo, dependendo do alcance da publicação, da maneira mais fidedigna possível”, acredita Vieira. Entretanto,  indica que novos valores éticos surgiram. "Existem dilemas éticos novos como o de fazer essa mediação dos comentários e interagir com a audiência. Os comentários dos leitores hoje ficam visíveis nas redes sociais, antes esses comentários eram controlados pelo jornalista. Só entrava no rádio o comentário que passava pela produção, esse controle não existe mais”, afirma Lívia.

Consumo

Em 2023, a revista Carta Capital divulgou uma pesquisa da Reuters, instituto associado à Universidade de Oxford do Reino Unido responsável por estudos na área do jornalismo. A pesquisa revela que 41% dos entrevistados brasileiros disseram preferir não se informar. Além disso, na mesma pesquisa, 43% dos entrevistados disseram confiar nas notícias. Os números ainda revelam que apenas 12% preferem o mundo impresso dos jornais e revistas, enquanto 79% dos entrevistados informam-se por meio do universo digital. 

Diante desses dados, são notórios os desafios na produção de notícias no Brasil, principalmente quando se tem um número expressivo de pessoas que dizem escolher não se informar. A jornalista e pesquisadora em jornalismo digital, Suzana Barbosa, explica que deve haver uma educação midiática no país. A sociedade precisa conhecer melhor e saber distinguir esses meios. A gente entra naquilo que é sempre apontado como uma lacuna que é o que chamamos de educação midiática. Então, saber ler os meios, compreender a realidade dos meios nos ajuda como um todo”, afirma a docente da FACOM.  

A jornalista defende a inserção do estudo da mídia no ensino.“ Há uma geração de público jovem da chamada geração Z, ou agora já se falando da geração alfa, num outro momento, que vem muito mais por um caminho que às vezes não consome informação dessas marcas tradicionais e vão optar por outras. É claro que eu acredito que a educação midiática precisa estar muito mais considerada na educação, na formação, no ensino médio, como disciplina curricularizada, porque isso ajuda as pessoas a compreenderem o ambiente de mídia que você tem no país, na sua cidade, e principalmente para que a gente possa fazer frente ao grande problema da desinformação”, disse Suzana.


          Suzana Barbosa/Foto: Antônio Gouveia de Sousa

 

Já Lívia ressalta que o jornalismo profissional precisa chegar nas pessoas. “Eu acho que o que falta também para o jornalismo profissional, de alguma maneira, é chegar até as pessoas e a internet bagunça isso, por conta dos algoritmos. Essas pessoas podem muito bem nem receber conteúdo jornalístico, elas só recebem as coisas pelas quais elas se interessam”, revela Lívia. Essa articulação das plataformas, de acordo com a jornalista, faz parte de uma prática perversa. “Às vezes, o conteúdo jornalístico nem chega nas pessoas. Então é uma lógica meio perversa dos algoritmos, que não é nem um pouco transparente”, salienta Lívia. 

Boa parte dos jornais tradicionais tiveram que se reinventar, era essa a decisão a se tomar ou escolher fechar as portas. O meio que muitos encontraram foi cobrar dos leitores digitais por assinaturas em seus jornais, essa é uma realidade da Folha de São Paulo e do jornal O Globo. Para Suzana essa é uma saída, pois nas palavras dela, jornalismo bom custa caro. “Você tem um jornalista fazendo uma reportagem especial que leva um mês. Para isso funcionar, ele tem que ter vias para manter a sua operação, sem contar o salário. E não é só o salário do jornalista, são todos os custos. Então, você vai ouvir que jornalismo bom custa caro”, afirma a professora. 

*Sob supervisão de Jessica Carvalho (DRT: 5778/BA)

Período para indicação das bancas examinadoras pelo(a) professor(a) orientador(a)

Quando: 31/05 a 09/06/2024
Como: por meio de formulário online a ser divulgado oportunamente e preenchido exclusivamente pelo(a) orientador(a).

Homologação das bancas examinadoras pelo Colegiado

Quando: 10/06/2024
Como: em reunião ordinária do Colegiado.

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